Currículos registram o diploma e omitem o resto. Ficam de fora o emprego que pagou a matrícula, a matéria que alguém teve de ensinar sem dominar e a tarefa entregue sob prazo alheio. Some justamente a informação mais útil sobre a formação de uma pessoa, que é saber como ela aprendeu a entregar. Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial, reconstrói essa parte omitida em Pequenas Histórias e Algumas Percepções.
O livro percorre um trajeto que começa numa fazenda sem escola no sul da Bahia e passa por Salvador, Ituberá, Viçosa, o Amazonas e o sul do Pará antes de chegar a Brasília. Entre um ponto e outro, o que aparece não é uma sequência de cursos. É uma sequência de trabalhos aceitos por necessidade, quase todos fora do que se chamaria de área de estudo.
A crença de que a formação cabe dentro do curso
A grade curricular tem começo e fim datados, e isso cria a impressão de que a formação também tem. A impressão é conveniente para instituições e para departamentos de pessoal, porque torna a competência verificável por documento. O problema aparece no primeiro ano de trabalho, quando boa parte do que se usa não foi ensinada em aula nenhuma e não consta de certificado algum.
Duas coisas escapam de qualquer ementa. A primeira é a obrigação de entregar para alguém que não é professor e não vai dar nota nem segunda chance. A segunda é o contato com repertórios que ninguém previu na grade. As duas chegaram a Alfredo Moreira antes de existir diploma, primeiro como bancário em Salvador e depois como escriturário de uma empresa exportadora de cacau.
Ensinar matérias que não se domina obriga a aprender
De volta à casa dos pais em Ituberá, ainda sem faculdade, o rapaz assumiu vagas de professor substituto no colégio local, cobrindo as matérias que faltassem naquele dia. O convite partiu da irmã, que lecionava ali. Era o período em que precisava se preparar para o vestibular, e o emprego o manteve dentro dos livros pela via mais exigente que existe.
Ensinar cobra o que estudar sozinho não cobra. Obriga a recuperar o conteúdo sem consulta, a ordená-lo numa sequência que faça sentido para outra cabeça e a antecipar a pergunta que vai expor a lacuna. Quem só lê consegue passar por cima do trecho que não entendeu. Quem precisa explicar aquele trecho às oito da manhã descobre o buraco na véspera.
O ofício que paga a conta também ensina
Na universidade, a fonte de renda foi a máquina de escrever. A habilidade vinha do tempo de banco e rendeu trabalhos avulsos de datilografia no centro acadêmico até chegarem as encomendas maiores: teses de mestrado, teses de doutorado e apostilas técnicas de professores. Nas páginas dedicadas a esse período, o autor ainda se orgulha da velocidade que alcançava no teclado.
Datilografar a tese de outra pessoa é ler a tese de outra pessoa, palavra por palavra, em áreas que não constavam do curso de agronomia. Junte-se a isso um padrão que a universidade não impunha: sem erro e no prazo, porque quem paga não corrige rascunho. Renda, exposição a conteúdo alheio e disciplina de entrega vieram no mesmo pacote.
O que perguntar a alguém para saber como ele se formou?
Alfredo Moreira Filho conclui que existem perguntas melhores que “onde você estudou”. O que você teve de entregar sem poder errar? Quem dependia daquilo? O que você aprendeu por obrigação, e não por escolha? As respostas costumam apontar para empregos modestos, feitos cedo demais e por dinheiro, que raramente aparecem em biografia oficial e quase sempre explicam mais que o diploma.
A formação de alguém não é a soma dos cursos concluídos. É a soma das situações em que essa pessoa precisou entregar antes de estar pronta e conseguiu. É essa lista, e não a outra, que a maioria recompõe ao voltar aos anos anteriores à faculdade. Ela costuma ser mais curta do que o currículo e bem mais explicativa.