Famosos têm rosto e voz clonados por IA em golpes que miram fãs e pacientes brasileiros

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Drauzio Varella, Tony Ramos, Glória Pires e Fernanda Montenegro estão entre os nomes usados sem autorização em campanhas fraudulentas geradas por inteligência artificial.

Uma onda de golpes digitais que usa deepfakes de celebridades brasileiras vem chamando atenção de especialistas em segurança da informação nas últimas semanas. Nomes como o médico Drauzio Varella e os atores Tony Ramos e Glória Pires já tiveram rosto e voz clonados por inteligência artificial em campanhas fraudulentas praticamente idênticas entre si, com os golpes se espalhando depois para outras figuras públicas, como Fernanda Montenegro e Roberto Carlos. A dúvida que fica para quem consome conteúdo desses famosos nas redes é direta: como identificar que aquele vídeo com a voz e o rosto de alguém conhecido é, na verdade, uma fabricação artificial, e por que esse tipo de golpe está cada vez mais difícil de perceber?

Como os golpistas estão clonando celebridades

Segundo o especialista em segurança da informação Daniel Porta, CISO da empresa Danresa, os sistemas modernos de inteligência artificial generativa dispensam qualquer captação inédita de vídeo ou áudio da vítima. Os algoritmos mapeiam o alvo a partir de registros públicos já disponíveis na internet, como entrevistas, participações em programas de TV e transmissões ao vivo, que fornecem exatamente a matéria-prima necessária para treinar os modelos de clonagem. “Os modelos de inteligência artificial generativa aprendem os padrões de um rosto e de uma voz a partir de material que já está publicado por aí”, explicou Porta, ao descrever como poucos segundos de voz limpa já são suficientes para clonar timbre, sotaque e entonação emocional de uma pessoa.

Essa característica explica por que celebridades com longa carreira na televisão, com décadas de entrevistas e aparições públicas registradas, acabam sendo alvos preferenciais desse tipo de fraude: quanto mais material de voz e imagem disponível publicamente, mais fácil se torna o trabalho de treinar um algoritmo capaz de reproduzir a pessoa com riqueza de detalhes. No caso relatado por veículos de tecnologia, o golpista só precisa fornecer um roteiro de texto para que a ferramenta gere a ilusão completa de veracidade, com movimento labial e entonação de voz coerentes com a pessoa retratada.

O caso de Drauzio Varella chama atenção por um motivo específico: o médico é figura de referência em saúde pública no Brasil, e seu nome sendo usado em campanhas fraudulentas explora justamente a confiança que pacientes depositam nele, ampliando o potencial de dano de golpes que costumam anunciar tratamentos, produtos ou promoções falsas usando a imagem de profissionais respeitados.

Por que esse tipo de golpe está crescendo tanto

O avanço exponencial da inteligência artificial tornou a produção de deepfakes mais barata e acessível, reduzindo bastante a barreira técnica que antes limitava esse tipo de fraude a grupos com conhecimento especializado. Dados da Polícia Federal, citados por veículos que acompanham o tema, apontam crescimento expressivo nos crimes de deepfake voltados à venda de produtos falsificados e à divulgação de campanhas fraudulentas usando a imagem de famosos, reforçando que o problema já deixou de ser pontual para se tornar uma modalidade recorrente de golpe digital no país.

Vale lembrar que esse tipo de fraude não afeta apenas celebridades: qualquer pessoa que tenha vídeos e áudios publicados nas redes sociais pode, em tese, ser alvo de clonagem por inteligência artificial. No caso de figuras públicas, porém, o alcance do golpe tende a ser muito maior, já que o conteúdo fraudulento se espalha com mais facilidade justamente por usar o rosto e a voz de alguém que o público já conhece e em quem confia.

O que fazer ao se deparar com um possível deepfake

Diante desse cenário, a recomendação de especialistas em segurança digital é desconfiar sistematicamente de vídeos que anunciam produtos, tratamentos milagrosos ou promoções usando a imagem de celebridades, especialmente quando o conteúdo direciona para links de compra fora dos canais oficiais do artista ou da marca associada a ele. Verificar se a informação também está disponível nos perfis verificados da própria celebridade ou em veículos de imprensa consolidados costuma ser o primeiro filtro de segurança antes de acreditar ou compartilhar esse tipo de conteúdo.

Para o público que acompanha de perto a vida de artistas e apresentadores, o alerta serve também como um lembrete importante: nem tudo que circula com o rosto e a voz de um famoso nas redes sociais é, de fato, produzido ou autorizado por ele. Com o barateamento da tecnologia de inteligência artificial generativa, a tendência entre especialistas é de que esse tipo de golpe continue se espalhando, o que reforça a necessidade de checar a fonte antes de confiar em qualquer vídeo viral envolvendo celebridades brasileiras.

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