Autonomia não é largar o paciente sozinho, explica Lucas Peralles

Nolan Hartwell
Nolan Hartwell
Lucas Peralles

Muita gente associa autonomia a ficar sozinho, sem orientação nem suporte a partir de certo ponto do tratamento. Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar, considera essa associação um dos maiores mal-entendidos sobre o que realmente significa evoluir dentro de um acompanhamento, como se a clínica simplesmente desaparecesse do mapa assim que o progresso aparece.

A confusão nasce porque autonomia costuma ser vendida, em outros contextos, como sinônimo de abandono, como se virar as costas fosse prova de confiança no progresso alcançado até ali. Dentro do Método LP, o conceito funciona de um jeito bem diferente disso, construído aos poucos ao longo de todo o processo, não decretado de uma vez no dia da última consulta marcada.

Autonomia significa que o paciente fica sozinho?

A resposta curta é não. Autonomia, nesse contexto, significa que a pessoa consegue sustentar decisões de saúde no dia a dia sem precisar de supervisão constante, e não que ninguém mais está olhando para o caso dela a partir daquele momento. A diferença entre as duas ideias parece pequena no papel, mas muda completamente a forma como o paciente encara o próprio progresso.

Um paciente autônomo, avalia Lucas Peralles, ainda pode voltar ao consultório quando fizer sentido, seja para um ajuste pontual ou para tratar de um objetivo novo, sem que isso represente qualquer tipo de fracasso do processo anterior nem retrocesso na evolução já conquistada. O retorno pontual, nesse caso, é manutenção, não recaída, e costuma durar poucas sessões até o ajuste ser feito.

Como fica claro que já é hora de reduzir o suporte?

O sinal não é uma data marcada no calendário nem uma meta numérica batida na balança em determinado mês. É a pessoa conseguir corrigir uma rota errada sozinha, sem entrar em pânico, quando a semana sai do previsto por causa de viagem, imprevisto ou período mais estressante no trabalho. A correção silenciosa costuma valer mais do que qualquer exame apresentado na consulta.

Na visão de Lucas Peralles, esse tipo de sinal aparece aos poucos, muito antes de qualquer alta formal ser cogitada, e costuma passar despercebido justamente porque não vem acompanhado de nenhum aviso especial ou marco visível no tratamento. É um acúmulo de pequenas decisões certas, não um evento único fácil de apontar no calendário.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

O que acontece se o suporte for reduzido cedo demais?

Reduzir suporte antes da hora tende a devolver o paciente para o mesmo ponto de partida, porque a estrutura externa ainda era o que sustentava boa parte da rotina, não o comportamento em si já consolidado o suficiente para funcionar sem apoio. O resultado costuma ser um retrocesso rápido, seguido de frustração e desconfiança em qualquer tentativa futura.

Lucas Peralles explica que essa antecipação costuma acontecer quando o resultado estético chega antes da maturidade comportamental, criando a falsa impressão de que o trabalho já terminou ali, mesmo com a base ainda instável por dentro. O espelho, nesses casos, engana mais do que ajuda.

O que realmente sustenta a autonomia depois da alta?

O que sustenta a autonomia depois da alta não é a ausência de acompanhamento, mas o repertório construído durante ele, capaz de responder a semanas boas e ruins sem depender de ninguém junto para cada decisão do dia a dia. Esse repertório inclui saber o que fazer quando o plano perfeito não é possível, quando a viagem atrasa o horário das refeições ou quando o cansaço da semana pede uma pausa no treino sem virar desculpa para desistir de tudo.

Para Lucas Peralles, a alta verdadeira acontece quando a clínica se torna dispensável para a manutenção do que já foi construído, e não quando o paciente simplesmente para de aparecer nas consultas, ainda inseguro sobre o que fazer sozinho a partir dali. É essa diferença, entre parar de comparecer e realmente não precisar mais, que separa abandono de autonomia de verdade, mesmo quando as duas situações parecem idênticas de fora.

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